terça-feira, 19 de abril de 2011

Grupo Galpão - Romeu e Julieta

A famosa peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, ganhou uma nova roupagem ao ser encenada pelo Grupo Galpão, de Belo Horizonte. A companhia de teatro popular e de rua faz uso de técnicas circenses, de uma linguagem meio Roseana e também do cancioneiro popular mineiro. O elemento principal da cenografia é um carro colocado de lado para a plateia e, a partir deste, se monta um palco dividido em três planos. Todo o palco é enfeitado com muitas flores, muitas cores, tudo feito à mão - como se estivessem reinventando o barroco, mostrando a simplicidade da trupe. Toda a trilha sonora da peça é feita ao vivo, com os atores tocando e cantando as músicas populares brasileiras, muito conhecidas por todo o território nacional. A encenação de Romeu e Julieta traz a tragédia de dois jovens apaixonados para o contexto da cultura popular brasileira. Ao texto original de Shakespeare juntam-se elementos da cultura popular brasileira e mineira, como serestas e modinhas, nos adereços e figurinos, que remetem ao interior do Brasil. Desde sua estreia na histórica cidade de Ouro Preto, em 1992, "Romeu & Julieta" construiu uma carreira de sucesso de público e crítica, no país e no exterior. Visto duzentas e setenta e duas vezes, em quase sessenta cidades brasileiras e em nove países estrangeiros - Espanha, Inglaterra, Portugal, Holanda, Alemanha, Estados Unidos, Uruguai, Venezuela e Colômbia - em teatros, estádios ou, preferencialmente, em praças públicas, por plateias oscilando entre trezentos e quatro mil espectadores. Em julho do ano de 2000, coroou sua trajetória com uma série de apresentações em Londres, no palco do Shakespeare’s Globe Theatre, onde recebeu uma consagradora acolhida do público inglês. O espetáculo recebeu o Prêmio Shell na categoria especial, em 1994, e foi considerado o melhor espetáculo pelo júri popular do Festival de Curitiba

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Caio F. Abreu - Onde Andará Dulce Veiga? Um Romance B.

Onde Andará Dulce Veiga? Um Romance B é um romance de Caio Fernando Abreu. Conta a história de um jornalista que, depois de muito tempo desempregado, consegue um “trabalhinho de repórter no Diário da Cidade, talvez o pior jornal do mundo”. Sua tarefa é fazer uma entrevista com a banda feminina de rock “Márcia Felácio e as Vaginas Dentatas” Quando ele consegue marcar a tal da entrevista com a vocalista Márcia, descobre que ela é filha de Dulce Veiga, cantora que desapareceu misteriosamente há vinte anos. Ao comentar esse curioso fato com seu chefe Castilhos, este lhe incumbe de escrever uma crônica sobre a cantora desaparecida. Retornando à Dulce Veiga, a narrativa se desenvolve numa fusão de recordações (do narrador, das fontes que são ouvidas, de informações coletadas na mídia, de outros textos literários, de mitos da tradição e de ícones da indústria cultural).  Depois de publicada, a crônica comove o público de tal forma que o dono do jornal, Rafic, promove o jornalista a “detetive” para que este tente encontrar o paradeiro de Dulce. No meio de sua procura, vários mistérios surgem, várias mentiras se confundem com verdades e muitas versões da mesma história são contadas. As personagens são bem características de Caio e bem variadas: prostitutas, macumbeiros, velhos, bêbados, mendigos, ricos, pobres, etc. A trama vai ficando cada vez mais confusa.
Caio F. morreu em 25 de fevereiro de 1996, em Porto Alegre, aos 47 anos, no auge da carreira literária internacional, vítima de HIV. A presença do vírus foi confirmada em 94, mas Caio desconfiava desde os anos 80, dúvida que assombrou e deixou marcas profundas em sua obra, inclusive em Dulce Veiga: a “contaminação” está presente em diferentes situações, mas pode ser sintetizada nos versos da banda Vaginas Dentatas, liderada pela filha de Dulce, a roqueira Márcia: “o passado é uma cilada,/ não há presente nem nada,/ o futuro está demente: estamos todos contaminados” (ABREU, 1990, p. 79).
No romance há quatro personagens soropositivos: dois ausentes. O primeiro é Pedro, que desapareceu após o caso de amor com o repórter-narrador. O segundo leva o nome de Ícaro, que morreu vitimado pelo HIV, ex-namorado de Márcia. Ela é a terceira vítima. O quarto personagem é o narrador jornalista. Contudo, a palavra Aids só aparece uma vez ao longo de toda a narrativa e surge na voz da roqueira Márcia. Em todas as outras situações, Caio F. usa o recurso da elipse.
            Dotado da linguagem baixo-astral bem comum nas histórias de Caio, o romance vai se desenrolado de maneira surpreendentemente agradável e simples. As personagens se conectam e alguns terminam por mostrar várias facetas de sua personalidade no decorrer das 213 páginas do livro.
            Narrado em primeira pessoa, a leitura é simples e rápida. A maneira como o autor nos conta a história é instigante e faz com que o leitor  devore o livro para tentar descobrir onde andará Dulce Veiga.
            E por que B? A referência remete ao cinema e às classificações que buscam categorizar hierarquicamente a qualidade dos produtos culturais para seu público. Filmes B eram aqueles que originariamente possuíam baixos orçamentos e por isso tinham menos condições de representar, com o mesmo poder de ilusão, a realidade que os filmes A, considerados até então como melhores. Ao se apropriar do termo para o vasto terreno da literatura, Caio não só questiona essa categorização, como lança um alerta para a questão da precariedade material em que vive o escritor no Brasil, o baixo orçamento, o lugar que ocupa a literatura no país, o escritor, suas condições materiais e seu relevo.

ABREU, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga? Um romance B. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.