Onde Andará Dulce Veiga? Um Romance B é um romance de Caio Fernando Abreu. Conta a história de um jornalista que, depois de muito tempo desempregado, consegue um “trabalhinho de repórter no Diário da Cidade, talvez o pior jornal do mundo”. Sua tarefa é fazer uma entrevista com a banda feminina de rock “Márcia Felácio e as Vaginas Dentatas” Quando ele consegue marcar a tal da entrevista com a vocalista Márcia, descobre que ela é filha de Dulce Veiga, cantora que desapareceu misteriosamente há vinte anos. Ao comentar esse curioso fato com seu chefe Castilhos, este lhe incumbe de escrever uma crônica sobre a cantora desaparecida. Retornando à Dulce Veiga, a narrativa se desenvolve numa fusão de recordações (do narrador, das fontes que são ouvidas, de informações coletadas na mídia, de outros textos literários, de mitos da tradição e de ícones da indústria cultural). Depois de publicada, a crônica comove o público de tal forma que o dono do jornal, Rafic, promove o jornalista a “detetive” para que este tente encontrar o paradeiro de Dulce. No meio de sua procura, vários mistérios surgem, várias mentiras se confundem com verdades e muitas versões da mesma história são contadas. As personagens são bem características de Caio e bem variadas: prostitutas, macumbeiros, velhos, bêbados, mendigos, ricos, pobres, etc. A trama vai ficando cada vez mais confusa.
Caio F. morreu em 25 de fevereiro de 1996, em Porto Alegre , aos 47 anos, no auge da carreira literária internacional, vítima de HIV. A presença do vírus foi confirmada em 94, mas Caio desconfiava desde os anos 80, dúvida que assombrou e deixou marcas profundas em sua obra, inclusive em Dulce Veiga : a “contaminação” está presente em diferentes situações, mas pode ser sintetizada nos versos da banda Vaginas Dentatas, liderada pela filha de Dulce, a roqueira Márcia: “o passado é uma cilada,/ não há presente nem nada,/ o futuro está demente: estamos todos contaminados” (ABREU, 1990, p. 79).
No romance há quatro personagens soropositivos: dois ausentes. O primeiro é Pedro, que desapareceu após o caso de amor com o repórter-narrador. O segundo leva o nome de Ícaro, que morreu vitimado pelo HIV, ex-namorado de Márcia. Ela é a terceira vítima. O quarto personagem é o narrador jornalista. Contudo, a palavra Aids só aparece uma vez ao longo de toda a narrativa e surge na voz da roqueira Márcia. Em todas as outras situações, Caio F. usa o recurso da elipse.
Dotado da linguagem baixo-astral bem comum nas histórias de Caio, o romance vai se desenrolado de maneira surpreendentemente agradável e simples. As personagens se conectam e alguns terminam por mostrar várias facetas de sua personalidade no decorrer das 213 páginas do livro.
Narrado em primeira pessoa, a leitura é simples e rápida. A maneira como o autor nos conta a história é instigante e faz com que o leitor devore o livro para tentar descobrir onde andará Dulce Veiga.
E por que B? A referência remete ao cinema e às classificações que buscam categorizar hierarquicamente a qualidade dos produtos culturais para seu público. Filmes B eram aqueles que originariamente possuíam baixos orçamentos e por isso tinham menos condições de representar, com o mesmo poder de ilusão, a realidade que os filmes A, considerados até então como melhores. Ao se apropriar do termo para o vasto terreno da literatura, Caio não só questiona essa categorização, como lança um alerta para a questão da precariedade material em que vive o escritor no Brasil, o baixo orçamento, o lugar que ocupa a literatura no país, o escritor, suas condições materiais e seu relevo.
ABREU, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga? Um romance B. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
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